Entre 2023 e 2025, a influência do crime organizado em municípios da Amazônia Legal aumentou 93%. Segundo levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025, foram identificadas 17 facções criminosas com atuação na região, incluindo organizações de origem estrangeira.
Na Amazônia, esses grupos disputam territórios e áreas estratégicas, além de estarem envolvidos em atividades como narcotráfico, grilagem de terras e tráfico de armas. A expansão dessas organizações tornou o combate ao crime organizado um dos principais desafios para a segurança pública nos estados amazônicos.
Especialistas avaliam que os candidatos ao governo dos estados da Amazônia terão pela frente um problema que exige mais do que medidas pontuais de repressão. O enfrentamento ao crime organizado demanda políticas públicas permanentes e eficazes, especialmente voltadas às populações em situação de vulnerabilidade social.
“Em vez de prender e matar pessoas pobres, negras e indígenas, precisamos distribuir a renda e oferecer alternativas concretas de vida. Colocar a segurança pública no centro do debate eleitoral é esconder o que mais importa: a miséria em que vive a imensa maioria da população hoje, na capital e no interior, nos centros urbanos e nas comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas”, disse o sociólogo Fábio Candotti, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) que estuda o encarceramento e a violência no estado.
O crime organizado percorre as longas distâncias amazônicas, alcançando as fronteiras por meio de rotas fluviais e as áreas de exploração de recursos naturais. As facções aproveitam a falta de presença estatal para expandir territórios e fortalecer o tráfico de drogas e armas. Dados das secretarias de segurança pública e das polícias estaduais mostram que, entre 2019 e 2024, foram apreendidas 162 toneladas de cocaína na região, um aumento de 574% para o período.
Apesar das apreensões e do trabalho de forças policiais, as organizações criminosas continuam exercendo influência de massa e formas de governança. No extremo oeste do Amazonas, o Alto Solimões é marcado pela ascensão do crime organizado e destacado pelo alto índice de mortes violentas. Na região, o município de Tabatinga (a 1.110 quilômetros de Manaus) é ponto estratégico para as rotas internacionais do narcotráfico por estar localizado na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru.
Entre 2024 e 2025, o tráfico de drogas registrou crescimento de 13,2% na região Norte. No mesmo período, o número de pessoas presas por esse tipo de crime na Amazônia Legal aumentou 6%, passando de 15.660 para 16.596 detentos. O crescimento ocorreu principalmente no Maranhão. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Secretaria Nacional de Políticas Penais.
O levantamento aponta que a expansão das facções criminosas não está restrita às áreas do interior da Amazônia. Os grandes centros urbanos da região também enfrentam disputas pelo controle territorial, agravando problemas históricos relacionados à segurança pública.
Segundo a advogada e mestra em Segurança Pública Goreth Rubim, a política de encarceramento acaba atingindo com maior frequência pessoas que ocupam posições de menor importância dentro da estrutura do tráfico.
“É comum a prisão das chamadas ‘mulas’, geralmente usuários de drogas ou pessoas cooptadas por organizações criminosas com a promessa de dinheiro fácil. Enquanto isso, os principais articuladores do tráfico permanecem em liberdade, muitas vezes em locais de difícil alcance ou até mesmo fora do país. Como consequência, os presídios ficam superlotados de pessoas pobres. Essa é a política de encarceramento que predomina no Brasil”, afirmou Goreth Rubim ao analisar os efeitos das ações de combate ao crime organizado.
Presença do Estado é desafio para os próximos governos
A desigualdade social e a expansão do crime organizado colocam em debate quais caminhos deverão ser adotados pelos próximos governos da Amazônia. Especialistas defendem uma presença mais efetiva e permanente do Estado, principalmente em regiões remotas onde a atuação do poder público ainda é limitada. A estratégia é apontada como fundamental para reduzir a vulnerabilidade social, evitar a cooptação de jovens e ampliar as oportunidades para as populações locais.
Para a advogada e mestra em Segurança Pública Goreth Rubim, a atuação do Estado precisa ir além da repressão policial e alcançar áreas onde comunidades enfrentam dificuldades de acesso a serviços públicos.
“O Estado precisa se fazer mais presente nessas comunidades por meio de políticas públicas sociais. A polícia, o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Poder Judiciário precisam estar mais próximos dessas pessoas, ouvindo as necessidades de cada grupo em situação de vulnerabilidade e promovendo ações de cidadania”, afirmou.
Segundo Rubim, investimentos em educação, saúde, assistência social e acesso ao primeiro emprego são medidas importantes para reduzir a influência das organizações criminosas. Na avaliação da especialista, a ausência do poder público cria condições favoráveis para que as facções ampliem sua atuação e atraiam jovens indígenas e ribeirinhos.
O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutor em Ciências Sociais Jaime Luiz Cunha de Souza também defende que o enfrentamento ao crime organizado deve ultrapassar as operações policiais. Para ele, as propostas dos candidatos ao governo precisam considerar ações integradas e permanentes de segurança e proteção territorial.
“O enfrentamento requer presença estatal permanente, inteligência sobre fluxos financeiros e cadeias econômicas ilegais, controle efetivo das rotas fluviais e fronteiriças, além da integração entre segurança pública, fiscalização ambiental e proteção territorial”, afirmou.
Na avaliação do professor, o combate às facções na Amazônia exige uma estratégia que considere o controle das redes econômicas ilegais, das rotas utilizadas pelo crime organizado e dos territórios onde esses grupos buscam ampliar sua influência. Dessa forma, o desafio para os próximos governos não se limita à prisão de integrantes das organizações, mas envolve a retomada da presença do Estado nas áreas mais vulneráveis.

Combate às facções exige estratégias além da repressão
Inspirado no modelo de combate às drogas adotado pelos Estados Unidos a partir da década de 1960, o Brasil passou a intensificar políticas de repressão às organizações criminosas por meio de leis e penas direcionadas a grupos envolvidos com violência e tráfico de drogas. No entanto, especialistas avaliam que esse modelo apresenta limitações por concentrar esforços na repressão aos integrantes das organizações, sem enfrentar de forma abrangente as causas e estruturas que sustentam o crime organizado.
Para o professor Jaime Luiz Cunha de Souza, a estratégia baseada exclusivamente no encarceramento e no confronto não é suficiente para reduzir a atuação das facções. Segundo ele, as organizações criminosas estão inseridas em estruturas econômicas, financeiras e políticas que também precisam ser investigadas e combatidas.
“A ideia de guerra às facções, prendendo muito e matando muito, já se sabe que não funciona. Os traficantes estão totalmente inseridos no sistema econômico, nos sistemas bancários e no sistema político. Sem ter um plano para atuar nessas frentes, os resultados, mesmo quando bem-intencionados, tendem a ser pífios”, afirmou Jaime Luiz.
O sociólogo Fábio Candotti destaca que, embora as facções estejam inseridas em mercados ilegais, a atuação desses grupos ainda sofre repressão por parte do Estado. Para ele, a realidade vivida atualmente na Amazônia está relacionada ao avanço de uma política de combate às drogas baseada principalmente na repressão.
“O que nós vivemos hoje na Amazônia brasileira é o auge da política de ‘guerra às drogas’. E é justamente isso que torna os mercados de drogas ilícitas violentos para quem transporta e vende nas ruas e, ao mesmo tempo, mais rentáveis para quem é dono das mercadorias”, afirmou Candotti.
O sociólogo também critica a forma como as políticas de segurança pública são formuladas e aponta a necessidade de considerar evidências científicas e os diferentes fatores relacionados à violência e ao tráfico de drogas.
“O nosso problema é que a segurança pública é conduzida na base do negacionismo científico, o que inclui a negação da participação de seus próprios agentes nos mercados ilegais e a negação das violências praticadas também por essas pessoas, que são de natureza racista. Negação também do fato, mais do que comprovado, que o consumo de drogas não diminui com esse modelo. Enfim, negação de que os ‘bandidos perigosos’, presos e mortos em ações que custam muito dinheiro público, fazem parte da parcela mais empobrecida e discriminada da nossa sociedade”, acrescentou Candotti.