Religião vira instrumento de disputa política na reta final das eleições

Alberto Dias
10 min leitura

O título de Padroeira do Brasil, concedido a Nossa Senhora Aparecida pelo Vaticano em 1930 e oficializado por lei federal em 1980, ganhou destaque no debate político durante a última semana de campanha das eleições presidenciais. Embora a polêmica tenha começado a partir de uma notícia falsa sobre uma suposta ameaça à titulação, o assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A controvérsia ultrapassou os campos político e jurídico e ganhou contornos religiosos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posicionou contra ataques a Nossa Senhora Aparecida, tanto nas redes sociais quanto em igrejas católicas. Paralelamente, setores evangélicos, especialmente os neopentecostais, intensificaram o embate com representantes da comunidade católica brasileira.

Para Marcelo Bastos Seráfico de Assis Carvalho, sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), “as igrejas tornaram-se potentes agentes políticos” e recorrem à “manipulação ideológica feita a partir da religiosidade”.

A avaliação também é compartilhada por Luiz Antônio Nascimento de Souza, sociólogo e professor do mesmo departamento da Ufam. Segundo ele, existem diferenças entre católicos e protestantes quanto às formas de orientação e atuação religiosa.

Dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Brasil possui aproximadamente 100,2 milhões de católicos, o equivalente a 56,7% da população. Já os evangélicos e protestantes somam 47,4 milhões de pessoas, representando 26,9%.

Na comparação com o levantamento de 2010, a proporção de católicos apresentou queda de 8,3 pontos percentuais, passando de 65% para 56,7%. No mesmo período, a participação dos evangélicos e protestantes aumentou 5,2 pontos percentuais, saindo de 21,7% para 26,9%.

Influência política

O avanço das igrejas evangélicas e sua crescente participação no cenário político brasileiro são apontados pelos sociólogos Marcelo Seráfico e Luiz Antônio Nascimento de Souza, que destacam diferentes formas de atuação e influência dessas instituições na sociedade.

“As igrejas converteram-se em entidades que além de prestar assistência social, promovem determinadas visões de mundo que, no caso das neopentecostais, se relacionam às teologias da prosperidade e do domínio, que, longe de promover uma compreensão crítica acerca da realidade decorrente da precarização, ajustam as subjetividades a ela”, opina Seráfico.

Os dois pesquisadores apontam que a intensificação das tensões entre religião e política ganhou força no Brasil a partir da virada do século, especialmente nas últimas duas décadas. Para Luiz Antônio, o avanço do fundamentalismo neopentecostal tornou esse cenário ainda mais acentuado nos últimos anos.

“O que tem ocorrido nos últimos 15, 20 anos, de uma forma mais intensa, e sobretudo nos últimos anos de uma forma radical, é a ocorrência de um fundamentalismo neopentecostal”, afirma.

Na avaliação de Seráfico, as igrejas neopentecostais também passaram a ocupar um espaço importante na vida de parcelas da população que enfrentam condições sociais e econômicas precárias.

“As igrejas, de modo muito particular as neopentecostais, converteram-se em importantes instituições de apoio a parcelas significativas da sociedade cujas vidas vêm sendo precarizadas ao longo dos últimos 30 anos”, afirma o sociólogo.

O pesquisador relaciona esse cenário às condições econômicas e à distribuição dos recursos públicos. Para ele, a exploração da vulnerabilidade social por meio da fé está associada a fatores estruturais da economia brasileira.

“A exploração do pobre pela fé decorre dos constrangimentos orçamentários impostos pelo compromisso das classes dominantes dentro e fora do Estado nacional com a manutenção do tripé macroeconômico e o consequente sequestro do orçamento público pelos agentes financeiros”, avalia Seráfico.

Luiz Antônio também chama atenção para uma mudança na atuação política de determinados grupos religiosos. Segundo ele, além das manifestações eleitorais realizadas dentro dos templos, lideranças passaram a disputar diretamente cargos políticos ou apoiar candidaturas apresentadas como abençoadas por suas instituições.

O professor aponta ainda a presença de discursos que, em sua avaliação, contribuem para o acirramento das disputas políticas e religiosas.

“Não só fazer campanha dentro dos templos religiosos, mas também apresentar os líderes religiosos como candidatos ou indicando candidatura ‘abençoadas’ por eles, com discursos de natureza autoritária e violenta”, afirma Luiz Antônio.

O sociólogo também demonstra preocupação com a utilização da desinformação e com a transformação de adversários políticos em inimigos religiosos.

“Nessa realidade, a mentira tem sido uma estratégia de difusão desse debate político, onde aqueles que antes eram adversários se tornam inimigos, inimigos de Deus… Então esse debate já autoriza essas lideranças religiosas a atacar inclusive pessoalmente ditos ‘inimigos de Deus’”, declara.

Para Luiz Antônio, a expansão desse tipo de discurso representa um risco para as instituições democráticas e para o futuro do país.

“Essa correia de transmissão desse neopentecostalismo fundamentalista ameaça a democracia brasileira, ameaça o futuro do Brasil”, alerta.

Manipulação da fé

Ao analisar a influência da religião nas decisões eleitorais, Marcelo Seráfico pondera que não é possível determinar o peso da religiosidade no voto dos brasileiros sem a realização de pesquisas empíricas. Entretanto, o sociólogo ressalta que a relação entre religião, sociedade e política está presente nas manifestações religiosas.

“É difícil mensurar o peso da religiosidade no voto do eleitor sem uma pesquisa empírica”, afirma Seráfico, ao destacar que “toda e qualquer pregação religiosa lida com questões do espírito e da matéria e está carregada de política”.

Para o professor, o problema surge quando a fé passa a ser utilizada como instrumento para direcionar a vontade e os interesses dos fiéis em benefício de quem conduz a pregação.

“O problema está no tipo de pregação que faz da religião e da religiosidade de quem crê, objeto de manipulação da vontade, do interesse do pregador”, diz Seráfico.

O sociólogo acrescenta que, nessas circunstâncias, a questão deixa de ser exclusivamente religiosa e passa a envolver estratégias de influência ideológica.

“Nesses casos, não se está diante de uma questão propriamente religiosa, mas sim de clara manipulação ideológica feita a partir da religiosidade alheia”, acrescenta.

Seráfico também questiona a interpretação de que o atual cenário brasileiro possa ser explicado apenas pela polarização entre esquerda e direita. Para ele, o conflito envolve diferentes projetos ideológicos e econômicos para o país.

“Desconfio da hipótese da polarização política entre esquerda e direita. Talvez possamos falar de um profundo conflito ideológico entre grupos defensores”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, de um lado está uma corrente que associa ultraneoliberalismo e autoritarismo; de outro, uma perspectiva que defende a preservação das instituições democráticas e determinadas políticas sociais, embora mantenha aspectos da estrutura econômica brasileira.

“De um lado, um ultraneoliberalismo autoritário, com nuances fascistas, e, de outro, de um neoliberalismo progressista, que defende a manutenção de instituições democráticas e algumas políticas focais, a despeito de a economia do país se manter subordinada aos interesses dos agentes financeiros e do agro, principalmente”, compara Seráfico.

Riscos à democracia e à liberdade religiosa

Além das preocupações relacionadas ao funcionamento das instituições democráticas, Luiz Antônio alerta para os possíveis impactos da radicalização religiosa sobre a convivência social e a integridade física de pessoas que não compartilham das mesmas crenças.

O professor utiliza o termo “Afeganização” para expressar seu receio de que o avanço de discursos fundamentalistas resulte em episódios de violência contra grupos religiosos divergentes.

“A gente corre um risco enorme do Brasil entrar em uma espécie de Afeganização, onde todos aqueles que não comungam com esse neopentecostalismo fundamentalíssimo evangélico serão sujeitos a violência desse grupo. Porque, afinal de contas ele se sente ‘autorizado por Deus’”, alerta.

Luiz Antônio também relaciona sua preocupação aos episódios de ataques contra símbolos e espaços religiosos registrados durante o acirramento do debate político envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

O sociólogo menciona manifestações de hostilidade contra a imagem da santa e outros episódios de violência religiosa, incluindo o incêndio de uma imagem de entidade religiosa no litoral paulista.

“Temos acompanhado recentemente esse debate sobre a ameaça que o grupo do Flávio Bolsonaro fez a Nossa Senhora Aparecida e, depois desse debate iniciado, já tem dois ou três casos de ataques religiosos, de ataque à igreja, de ataque à Santa. No litoral paulista uma imagem de uma entidade foi incendiada”, conclui Luiz Antônio.

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