A seca provocada pelos efeitos do El Niño na região Norte do Brasil pode aumentar em até 150% o custo do transporte de contêineres com destino a Manaus, segundo estudo elaborado pela A&M Infra, da Alvarez & Marsal, empresa especializada em infraestrutura e transporte, para a Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem).
De acordo com o levantamento, em um cenário de redução de dois metros no calado dos rios, a capacidade de transporte dos navios diminui 35%, enquanto o custo por unidade aumenta 63%.
Em uma situação ainda mais severa, com a redução de 3,2 metros no calado disponível para as embarcações, a capacidade de transporte pode cair 55%, ampliando os impactos sobre a logística de abastecimento de Manaus.
“O impacto ocorre porque, mesmo com a redução da quantidade de carga transportada em razão das limitações de calado, grande parte dos custos da viagem permanece. Além disso, a estiagem pode provocar atrasos, suspensão de escalas, aumento das despesas com armazenagem e a necessidade de adoção de alternativas logísticas”, aponta o estudo.
A projeção considera como referência os períodos de seca registrados na região em 2023 e 2024. Em outubro de 2023, a baixa profundidade dos rios chegou a impedir a navegação de navios por várias semanas. Naquele mês, a movimentação de contêineres em Manaus caiu 85% em comparação com agosto, período considerado de pico.
Em 2024, apesar da utilização de píeres flutuantes em Itacoatiara como alternativa para evitar uma nova paralisação, a movimentação de contêineres recuou 55% em outubro e 41% em novembro, na comparação com julho.
A consultoria também alerta para a limitada quantidade de alternativas logísticas disponíveis para Manaus, que permanece fortemente dependente das hidrovias. Segundo o estudo, o cenário pode se tornar ainda mais crítico em 2027, diante da possibilidade de uma estiagem mais intensa associada aos efeitos do El Niño.
O estudo também aborda a chamada sobretaxa de seca, mecanismo utilizado para compensar os custos adicionais das operações durante períodos de baixa navegabilidade e ajudar a garantir a continuidade do serviço. Medidas semelhantes são adotadas em rotas afetadas por restrições hídricas no Rio Reno, no Canadá e no Canal do Panamá.
Sobre o tema, o diretor-executivo da Abac, Luis Resano, defende que é necessário “atacar” a origem do problema, em vez de “apenas adotar medidas paliativas”.
“Mesmo com a adoção de medidas paliativas para manter as operações, há aumento relevante dos custos e impactos sobre a eficiência logística. Ele é fundamental para manter a operação sustentável. A concessão das hidrovias pode ser um caminho importante para garantir maior previsibilidade e eficiência na execução das dragagens, evitando atrasos ou intervenções realizadas fora do momento adequado”, afirmou Resano em nota enviada ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.